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Sinto o sabor do vinho
Sinto o sabor do vinho
Oiço o soplete do vizinho
Lembro dos escritos que saíram antes.
Todo ser é uma memória.
Ou muitas, costuradas ou dispersas.
Moro numa casa dada por amor pelos meus pais e irmãos. É a única terra que tive nesta terra. Ontem ouvia os Rolling Stones. Já estiveram nesta terra meus melhores amigos, alguns já naquela outra terra onde sempre brilha o sol. Minha mulher, meus filhos, minhas filhas, meus irmãos, algumas das minhas cunhadas e cunhados. Gente de serviço a consertar o teto ou a pintar, a trocar um courinho da torneira, a limpar o lar de quem apenas sabe costurar e tecer.
Nesta casa comecei a costurar, lembro bem, uma ponte de regresso para mim mesmo, lá pelo ano de 2001. Lembro como se fosse agora: era uma tentativa desesperada, as forças minadas pelos remédios antidepressivos, o mundo todo tão longe, como por trás de uma cortina de vidro. Assim nasceu, com Maria me incentivando do meu lado: Aflicciones de un eremita en vísperas de un reingresocial. Estábamos preparándonos para ir a Mendoza, com Diogo y Leila y Bruno.
El texto vería la luz en La Nación, de Buenos Aires, y su autor inspiraría una réplica bien humorada de Leonardo mi hijo: Semejanzas entre uno y uno mismo, también vehiculado por ese mismo diario. Era el regreso de mi capacidad de juntar palabras. Un tipo gráfico. Por ese entonces no leía casi nada, o alguna poesía o Angústia, de Graciliano Ramos. Cortázar Después hay que llegar, Borges: El porvenir es tan irrevocable como el rígido ayer.
Me deshice de miles de libros que me enfermaban la cabeza. Pintaba como loco. Mi hermano Arturo me vino a visitar, mi hermano Leo también, y con éste a mi lado, una noche de 2003, pinté mi último cuadro, vendido –cosa rara— a mi colega Regina, del Depto. de Historia. Ahora tomo un vino, esta tarde lluviosa, ou deveria dizer chuvosa? Nesta casa me encontro. Cabe muita gente e querem que a venda porque os ladrões. Porque a insegurança. Daqui não saio, daqui ninguém me tira.
Insegurança era não saber, em 19 de junho de 1976, se essa noite ou qualquer outra noite, viria um Falcon gris me buscar e acabar com toda a minha família. Ainda hoje me ligam da imobiliária dizendo ter uma compradora com dinheiro na mão, querendo ver a casa. Vem não. Vendo não. Por quê? Não vendo e pronto. Aqui confluem os rios da minha existência. Os caminhos todos que estão gravados na planta dos meus pés desembocaram nestes mosaicos sobre os quais escrevo.
Dói a coluna. Pior era quando doía a alma e não sabia que doía. E esmurrava o mundo sem saber que reproduzia a violência contra mim exercitada pela prepotência de todos os donos da verdade com quem me deparara desde a minha mais tenra infância. Talvez por isso me refugie nestes muros com tanto afinco. Este jardim onde os jazmineiros e os hibiscos florescem e perfumam as flores amarelas, guarda as memórias das minhas últimas conversas com a minha mãe.
Os sonhos e os desvarios de quem ainda, nesta altura da vida, como Romano de Sant´Anna diria, volta do seu exílio mais recente. Quem ainda, com a ajuda de meus amigos, junta seus pedaços na armação de infinitos mosaicos fragosianos. Aqui estiveram militantes e santos da Igreja Popular, ex-guerrilheiros hoje combatentes pela integração social, sanadores e sanadoras, trabalhadores da educação freireana, sobreviventes de distintas calamidades, sorridentes e triunfador@s.
Lembro de um filme brasileiro visto já não sei quando, não interessa, em que um homem decide ficar na sua casa até o fim. Ela ia ser demolida creio que pela prefeitura não sei por que. E ele olha o retrato da sua mãe na sala e decide ficar até o fim. Não tem prefeitura municipal de João Pessoa chegando com as suas topadoras. Nem tratores empurrando a minha saída. O dinheiro pode esperar. Isto sei. O medo pode dar um tempo, pois não. Afinal, o que é um ladrão ao lado de esquadrões
Da morte caçando por doquier? Hoje escrevo estas coisas em casa. Refeito pela estada com as minhas companheiras na promoção da saúde mental comunitária em Ambulantes, Mangabeira. Maio de 2008. Lembrarei desta data. Muitos não voltaram. Voltaram em nós, já não em mim apenas, mas nesta comunidade toda de pé, pelo Conselho Local de Saúde, uma democracia e uma humanização que muitos sonharam e nem viram, ao menos nesta geração.
Nestas paredes ressoa silenciosamente Pessoa. Becquer. John Lennon, McCartney, Ringo Starr, George Harrison. Roberto Carlos: El jardín del vecino, Yo solo quiero. Borges: Límites. Cortázar: Manual de instrucciones, Después hay que llegar. Los Rolling Stones, Los del Suquia, Jorge Cafrune, Rita Pavone, Adamo, Gigliola Cinquetti, qué se yo quien, Gardel, Angelillo, Renato Russo, Skank, Gilberto Gil, Caetano, Chico Buarque. Não deixem essa turma se calar jamais. Nunca jamais.
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